Crise Asmática
Atualizado em: 12 Jun 2025
Prescrição Ambulatorial
Orientações ao Prescritor
- Identificar os sinais de gravidade para orientar o local de tratamento;
- As medicações inalatórias podem ser feitas por nebulização ou aerossol (puff). As vantagens do aerossol é a rapidez de administração e a possibilidade de ser aplicado com espaçador para facilitar a administração;
- Corticoide sistêmico deve ser iniciado em pacientes com risco de evoluir para crise grave;
- Em pacientes sem medicação inalatória ou em uso de medicação de longa duração, iniciar ou aumentar a dose, conforme conteúdo específico do tratamento da asma;
- Avaliar diagnóstico diferencial:
- Pneumonia;
- Anafilaxia;
- Tromboembolismo pulmonar;
- Pneumotórax;
- Insuficiência cardíaca descompensada.
- Pneumonia;
Tabela 1. Gravidade da crise de asmaTratamento Farmacológico
Escolha um dos esquemas ou associe-os ao esquema C conforme a necessidade clínica:
- Esquema A: Combinação de CI + formoterol: Escolha uma das opções:
- Formoterol + budesonida 6/200 microgramas inalar 1 cápsula sob demanda até de 4/4 horas (dose máxima de Formoterol: 72 microgramas/dia);
- Formoterol + beclometasona 6/200 microgramas inalar 1 jato sob demanda até de 4/4 horas (dose máxima de Formoterol: 72 microgramas/dia).
Esquema B: Associação:
I. Beta 2-agonista de curta duração.
+
II. Corticoide inalatório.
- Opções de beta-2-agonista de curta duração (I):
- Bromidrato de fenoterol aerossol (100 microgramas/dose) 4-10 jatos inalados de 20 em 20 minutos na primeira hora seguidos de 4-10 jatos inalados de 1/1 hora se broncoespasmo intenso. Após o controle, manter até de 2/2 horas;
- Sulfato de salbutamol aerossol (100 microgramas/dose) 4-10 jatos inalados de 20 em 20 minutos na primeira hora seguidos de 4-10 jatos inalados de 1/1 hora, se broncoespasmo intenso. Após o controle, manter até de 2/2 horas;
- Sulfato de salbutamol gotas (5 mg/mL) 0,5-1 mL (10-20 gotas) diluído em 3-5 mL de SF 0,9% inalado de 20 em 20 minutos na primeira hora; em seguida, de 1/1 hora, se broncoespasmo intenso. Após o controle, manter até de 2/2 horas.
- Opções de corticoide inalatório (II):
- Beclometasona 200 microgramas inalar 1 jato toda vez que fizer uso de beta-2-agonista de curta duração;
- Budesonida 200 microgramas inalar 1 jato toda vez que fizer uso de beta-2-agonista de curta duração.
- Esquema C: Corticoide sistêmico: Escolha uma das opções:
- Prednisona (20 mg/comprimido) 40-60 mg VO de 24/24 horas por 5-7 dias, pela manhã;
- Prednisolona (20 mg/comprimido) 40-60 mg VO de 24/24 horas por 5-7 dias, pela manhã.
Orientações ao Paciente
- Os pacientes que se apresentam com crise de asma devem ser orientados quanto a medicações de uso regular, técnica inalatória e retorno para reavaliação em, no máximo, 5 a 7 dias:
- Iniciar medicação inalatória contínua para aqueles sem tratamento;
- Aumentar a dose de medicações regulares para aqueles já em tratamento ou iniciar tratamento para aqueles sem medicação;
- Rever técnica inalatória (principal causa de falha de controle);
- Orientar sobre exposição ambiental;
- Manter corticoide oral por 5 a 7 dias para aqueles com risco de evoluir para crise grave;
- Orientar sobre sinais de alarme e retorno à emergência.
Prescrição Hospitalar
Orientações ao Prescritor
- Avaliar a gravidade da crise conforme a tabela 2;
- Iniciar monitorizações cardíaca e hemodinâmica, acesso periférico e oxigênio suplementar, se necessário (SatO2 < 92%);
- Identificar possíveis diagnósticos diferenciais, como IC descompensada, pneumotórax, pneumonia ou TEP;
- O objetivo inicial do tratamento é o alívio rápido do broncospasmo, reduzindo o trabalho ventilatório e a hiperinsuflação pulmonar dinâmica;
- As medicações inalatórias devem ser administradas por meio de espaçador, dando-se preferência a dispositivos pressurizados;
- Na presença de sinais de fadiga respiratória, não retardar a intubação orotraqueal;
- Considerar sempre a opção de suporte ventilatório com pressão positiva (VNI) como tratamento adjuvante;
- Se o paciente estiver em ventilação mecânica invasiva ou não invasiva, o uso de doses maiores de broncodilatadores por via inalatória (em geral, 2-3x maiores) pode ser necessário para compensar as perdas no circuito.
Tabela 2. Critérios de gravidadeDieta e Hidratação
- Dieta zero inicialmente e, após melhora da dispneia, avaliar conforme o quadro clínico:
- A dieta por via oral só pode ser liberada após redução do trabalho ventilatório e ausência de risco de falência ventilatória;
- Nos pacientes que evoluíram para intubação orotraqueal, o início de dieta enteral deve seguir de acordo com as condições clínicas do paciente.
- SF 0,9% 20-30 mL/kg EV em 24 horas:
- Glicose hipertônica 50% 200 mL divididos nas etapas do item 2, se dieta zero.
Tratamento Farmacológico
A abordagem da crise de asma grave é feita em etapas, de acordo com a resposta do paciente. Se o paciente não responde à etapa do esquema A, deve-se prosseguir para B. A etapa C é para casos refratários e de exceção.
Esquema A: Associação:
I. Beta-2-agonista de curta duração (SABA).
+
II. Anticolinérgico de curta duração (SAMA).
+
III. Corticoterapia sistêmica.
- Opções de beta-agonista de curta ação (I): Escolha uma das opções adiante.
- Bromidrato de fenoterol aerossol (100 microgramas/dose) 4-10 jatos inalados de 20 em 20 minutos na primeira hora seguidos de 4-10 jatos inalados de 1/1 hora, se broncoespasmo intenso. Após o controle, manter a medicação até intervalos de 2 a 6 horas;
- Sulfato de salbutamol aerossol (100 microgramas/dose) 4-10 jatos inalados de 20 em 20 minutos na primeira hora seguidos de 4-10 jatos inalados de 1/1 hora, se broncoespasmo intenso. Após o controle, manter até intervalo de 2 a 6 horas de acordo com sintomas;
- Sulfato de salbutamol gotas (5 mg/mL) 0,5-1 mL (10-20 gotas) diluído em 3-5 mL de SF 0,9%. Inalar de 20 em 20 minutos na primeira hora e, em seguida, de 1/1 hora, se broncoespasmo intenso. Após o controle, manter até intervalo de 2 a 6 horas de acordo com sintomas.
- Opções de anticolinérgico de curta ação (II): Escolha uma das opções a seguir.
- Brometo de ipratrópio (25 microgramas/dose) 4 jatos via inalatória de 20 em 20 minutos junto com SABA na primeira hora. Em seguida, 4 a 8 jatos inalados de 1/1 hora, se broncoespasmo intenso. Após o controle, manter até intervalo de 2 a 6 horas de acordo com sintomas;
- Brometo de ipratrópio solução 0,025% (0,25 mg/mL) 0,5 mg (40 gotas) diluído em 3-5 mL de SF 0,9% por via inalatória de 20 em 20 minutos junto com SABA na primeira hora. Em seguida, nebulização horária, se broncoespasmo intenso. Após o controle, manter até intervalo de 2 a 6 horas de acordo com sintomas.
- Opções de corticoterapia sistêmica (III): escolha uma das opções a seguir.
- Prednisona (20 mg/comprimido) 40-60 mg VO de 24/24 horas por 5-7 dias;
- Metilprednisolona (40 mg/mL) 40 mg EV de 12/12 horas por 5-7 dias;
- Hidrocortisona (100 mg/2 mL) 200 mg EV de ataque seguidos de 100 mg EV de 8/8 horas por 5-7 dias.
- Esquema B: Ausência de melhora dos sintomas e do peak flow para valores 60-80% do predito ou do melhor do paciente (preferencial): Adicionar ao Esquema A:
- Sulfato de magnésio 10% (1 g/10 mL) Fazer 2 g (20 mL) EV diluídos para 80 mL de SF 0,9%. Correr em 20-30 minutos (bomba de infusão):
- Atenção aos efeitos colaterais da infusão de magnésio, como hipotensão, rubor facial e hiporreflexia.
- Esquema C: Indicado como terapia off-label na ausência de melhora dos sintomas e do peak flow para valores 60-80% do predito ou do melhor do paciente. Opções de beta-2-agonista de curta duração (SABA) por via endovenosa: Escolha uma das opções:
- Salbutamol (0,5 mg/mL) 10 mL + SF 0,9% 40 mL (concentração: 100 microgramas/mL). Dose de ataque: 250 microgramas em 10 minutos. Dose de manutenção: 3-20 microgramas/minuto;
- Terbutalina (0,5 mg/mL) 10 mL + SG 5% 90 mL (concentração: 50 microgramas/mL). Dose de ataque: 250 microgramas EV em 10 minutos. Dose de manutenção: 1,5-5 microgramas/minuto;
- Adrenalina (1 mg/mL) 0,3-0,5 mg IM, podendo-se repetir mais 2 vezes (total de 3 doses) em um intervalo de 20 minutos cada um (off-label). Observação! Considerar, principalmente, na suspeita de anafilaxia.
Atenção! O consenso internacional da GINA não recomenda o uso de beta-2-agonista venoso devido à alta incidência de efeitos colaterais e à ausência de estudos que comprovem benefício sobre os medicamentos inalatórios.
Para mais informações sobre broncoespasmo refratário, acesse conteúdo específico.
Profiláticos e Sintomáticos
- 1. Analgésico e antitérmico: Se presença de dor ou febre ≥ 37,8 °C. Escolha uma das opções:
- Dipirona sódica (500 mg/mL) 1-2 g EV até de 4/4 horas (dose máxima: 5 g em 24 horas);
- Dipirona sódica gotas (500 mg/mL) 20-40 gotas VO até de 4/4 horas;
- Dipirona sódica 500-1.000 mg VO até de 4/4 horas;
- Paracetamol gotas (200 mg/mL) 35-55 gotas VO até de 6/6 horas;
- Paracetamol 500-750 mg VO até de 6/6 horas.
- 2. Antiemético: Se presença de náuseas e/ou vômitos. Escolha uma das opções:
- Metoclopramida (10 mg/2 mL) 10 mg EV diluídos em água destilada até de 8/8 horas;
- Metoclopramida (4 mg/mL) 50 gotas VO de 8/8 horas;
- Metoclopramida 10 mg VO de 8/8 horas;
- Bromoprida (10 mg/2 mL) 10 mg EV de 8/8 horas;
- Bromoprida (4 mg/mL) 1-3 gotas/kg VO de 8/8 horas.
- 3. Para proteção gástrica: Escolha uma das opções:
- Omeprazol (40 mg/10 mL) 20-40 mg VO/EV de 24/24 horas, pela manhã;
- Pantoprazol (40 mg/10mL) 40 mg EV de 24/24 horas.
- 4. Profilaxia de TVP:
- Enoxaparina (40 mg/0,4 mL) 40 mg SC de 24/24 horas, conforme indicação. Para mais informações, acesse Profilaxia de TVP.
Procedimentos – Insuficiência Respiratória por Asma
Alguns pacientes não respondem às terapias inalatórias e tampouco a corticoide e ventilação não invasiva, portanto devem prosseguir para intubação orotraqueal.
- Cuidados na abordagem da via respiratória de pacientes asmáticos:
- Escolha do sedativo:
- Preferência por uso de Cetamina ou Propofol devido ao efeito broncodilatador. Evitar Morfina e Atracúrio devido à liberação de histamina e à potencial piora do broncospasmo;
- Cloridrato de cetamina (50 mg/mL) para indução em sequência rápida está indicado na dose de 1-2 mg/kg EV em bólus. Manutenção de sedação pode ser com 0,01-0,03 mg/kg/minuto;
- Propofol (10 mg/mL) para indução em sequência rápida, está indicada a dose de 1-3 mg/kg EV em bólus. Manutenção de sedação pode ser com 1,5-4,5 mg/kg/hora. Atenção especial aos pacientes idosos, que tendem a ser mais sensíveis.
- Escolha do modo ventilatório:
- Manter SatO2 entre 92-95%;
- Calcular auto-PEEP e reduzir com PEEP extrínseca (cerca de 2/3 da auto-PEEP);
- Frequência respiratória menor e maior tempo expiratório com o objetivo de reduzir a hiperinsuflação;
- Em VCV, manter onda de fluxo quadrada para menor tempo inspiratório e fluxo elevado (60 L);
- Em PCV, ajustar tempo inspiratório e tolerar pressão de pico mais elevada, desde que platô dentro do que é considerado seguro (30 cm H2O);
- Para mais detalhes do manejo da ventilação mecânica na crise asmática grave, acessar conteúdo específico.
- Diagnóstico diferencial: Para crise grave, é ainda mais importante descartar outras causas de descompensação, como TEP e pneumonia.
Outras Informações
Definição: Episódio de exacerbação da asma, caracterizado por aumento da resistência das vias aéreas devido à acentuação do broncoespasmo e ao aumento da produção de muco. Deflagrado por fatores externos, gerando sintomas de sibilos, dispneia e tosse, assim como piora da função pulmonar.
Asma é uma doença crônica das vias aéreas caracterizada por um processo inflamatório subjacente persistente que torna o epitélio respiratório sensível à exposição ambiental a alérgenos e antígenos.
A crise de asma é caracterizada por um processo agudo de exposição ambiental que desencadeia um aumento da resposta inflamatória em um pulmão suscetível, gerando broncoespasmo, aumento da resistência das vias aéreas e aprisionamento aéreo, com redução da capacidade vital pulmonar, dado o aumento do volume residual. Esse processo gera hiperinsuflação dinâmica com aumento do trabalho ventilatório, podendo levar à fadiga muscular e à insuficiência respiratória.
Crise de asma. Ilustração: Rafael GuedesAnamnese
É fundamental identificar os sinais e sintomas sugestivos de exacerbação da asma, assim como classificar a gravidade da crise.
- Quadro clínico: Sinais e sintomas:
- Dispneia ou intolerância a esforços;
- Tosse seca;
- Sibilância (chiado);
- Dor torácica opressiva;
- Pico de fluxo expiratório reduzido em relação ao basal.
- Avaliar potenciais fatores desencadeantes:
- Infecções virais;
- Exposição a pelos de animais;
- Exposição a Pólen;
- Exposição a alérgenos ambientais (cheiros fortes, como os de produtos de limpeza, mofo);
- Má adesão ao tratamento;
- Uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) ou betabloqueadores.
Atenção! Colírios para glaucoma, como Timolol, podem desencadear crises em pessoas asmáticas suscetíveis.
Exame Físico
Identificar os sinais de gravidade precocemente e detectar possíveis diagnósticos diferenciais.
- Principais achados:
- Taquipneia;
- Uso de musculatura acessória;
- Batimento de fúrcula esternal;
- Posição de tripé (apoiar as mãos nos joelhos);
- Aumento do tempo expiratório;
- Sibilos.
Ausculta pulmonar: Sibilos expiratórios que progridem para inspiratórios e expiratórios e, em casos extremos, desaparecem pela grave diminuição do fluxo aéreo com consequente diminuição do murmúrio vesicular (tórax silencioso).
Ausculta cardíaca: Avaliar presença de arritmia que pode contribuir ou ser a causa da descompensação da asma. Avaliar a presença de pulso paradoxal (queda da pressão sistólica em mais 10 mmHg durante a inspiração).
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