Diabetes Mellitus Tipo 2 em Pediatria
Atualizado em: 31 Out 2024
Prescrição Ambulatorial
Orientações ao Prescritor
- O objetivo do tratamento é alcançar e manter o controle glicêmico normal, melhorar a sensibilidade à Insulina e identificar e tratar, se necessário, comorbidades como hipertensão, dislipidemias;
- Parte importante do tratamento consiste em modificações do estilo de vida: Dieta, preferencialmente guiada por nutricionista com experiência no manejo da doença, realização de atividade física e controle do peso;
- Pacientes com complicações agudas como cetoacidose diabética ou estado hiperosmolar hiperglicêmico devem ser hospitalizados para tratamento;
- O paciente deverá manter acompanhamento regular, com especialista endocrinologista pediátrico;
- Quando há falha da monoterapia com Metformina, deve-se averiguar adesão ao tratamento, intensificar medidas não farmacológicas e avaliar mudança de esquema de tratamento;
- As metas do tratamento são:
- Glicemia de jejum < 130 mg/dL e HbA1C < 7 %;
- Resolução de poliúria, noctúria e polidipsia;
- Peso corporal saudável (IMC < percentil 85 para idade e sexo);
- Manutenção dos níveis cardioprotetores de lipídios e pressão sanguínea (nível de LDL < 100 mg/dL, triglicerídeos < 150 mg/dL, nível de HDL > 35 mg/dL; PA < 95º percentil para idade, sexo e estatura).
Tratamento Farmacológico
Escolha um dos esquemas para tratamento inicial de pacientes metabolicamente estáveis ou associe-os conforme necessidade clínica:
- Esquema A: Pacientes com HbA1c < 8,5% e assintomáticos: Monoterapia:
- Metformina (500 mg/comprimido) dose inicial 1 comprimido VO de 24/24 horas ou de 12/12 horas, titulando 500 mg a cada semana (dose máxima: 2.000 mg/dia).
Esquema B: Pacientes com HbA1C ≥ 8,5% ou glicose plasmática ≥ 250 mg/dL e com sintomas hiperglicêmicos (poliúria, polidipsia, noctúria) e sem cetoacidose: Associação:
I. Insulina basal (100 unidades/mL) 0,25-0,5 UI/kg/dia de 24/24 horas via SC, titular a cada 2-3 dias conforme glicemia capilar (dose basal).
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II. Metformina (500 mg/comprimido) 1 comprimido VO de 12/12 horas, titulando se necessário, aumentando 500 mg a cada semana (dose máxima: 2.000 mg/dia).
- Esquema C: Pacientes com cetose ou cetoacidose: Inicialmente, escolher tratamento em monoterapia com Insulina, adicionando Metformina após resolução da cetose e melhora da glicemia:
- Terapia inicial: Insulina basal (100 unidades/mL) 0,25-0,5 UI/kg/dia de 24/24 horas via SC, titular a cada 2-3 dias conforme glicemia capilar (dose basal);
- Manutenção após resolução da cetose e glicemia: Adicionar Metformina (500 mg/comprimido) 1 comprimido VO de 12/12 horas, titulando 500 mg a cada semana (dose máxima: 2.000 mg/dia).
- Esquema D: Se paciente mantiver HbA1C ≥ 8% por 3 a 6 meses após medidas não farmacológicas e adesão à terapia inicial: Adicionar ao esquema em uso uma das opções:
- Insulina basal (100 unidades/mL) 0,25-0,5 UI/kg/dia de 24/24 horas via SC, titular a cada 2-3 dias conforme glicemia capilar (dose basal);
- Liraglutida (6 mg/mL) em crianças ≥ 10 anos, iniciar com 0,6 mg uma vez ao dia por 1 semana, realizando incrementos de 0,6 mg/dia semanais até atingir o controle glicêmico.
Tratamento Não Farmacológico
- A terapia não farmacológica deve ser realizada por todos os pacientes com DM2, com objetivo de melhorar controle glicêmico:
- Terapia nutricional/dieta: Preferencialmente, deve ser orientada por nutricionista. Objetiva redução da ingestão calórica, melhora qualitativa da dieta para fornecer os elementos nutricionais para adequado crescimento e desenvolvimento.
- Redução de peso: A redução de peso diminui a resistência insulínica e melhora a secreção de insulina, melhorando o controle glicêmico.
- Atividade fisica: Diminui a resistência à insulina. Os pacientes devem praticar exercício físico regularmente e diminuir comportamentos sedentários, como limitar tempo de tela, por exemplo.
Outras Informações
Definição: Diabetes mellitus tipo 2 (DM2) é uma doença metabólica em que há hiperglicemia por deficiência relativa de insulina.
Diabetes tipo 2 envolve tanto a resistência à ação da insulina quanto uma alteração na função da célula betapancreática, que a torna incapaz de manter uma adequada secreção de insulina.
A secreção prejudicada não é mediada por anticorpos contra as células das ilhotas pancreáticas. Quando autoanticorpos pancreáticos estão presentes, considera-se diagnóstico de diabetes mellitus tipo 1 (DM1).
- Dez defeitos fisiopatológicos que contribuem para o DM2:
- Nas células betapancreáticas com redução de seu número e de sua função.
- Nas celulas alfapancreáticas com aumento de glucagon.
- Aumento da resistência insulínica no tecido adiposo, muscular esquelético e/ou hepático.
- Aumento da reabsorção de glicose, incluindo hiperexpressão de SGLT2, aumento de inflamação e de fibrose.
- No cérebro, há desregulação do apetite, aumento do tônus simpático e redução da atividade dopaminérgica.
- No trato gastrointestinal, há redução do efeito da incretina.
- Aumento da inflamação crônica.
- Desregulação imune.
- No estômago e/ou no intestino delgado, pode ocorrer esvaziamento anormal, disbiose gástrica e aumento da absorção de glicose.
- Deposição de amilina pancreática no pâncreas.
Anamnese
Epidemiologia: A incidência de DM2 aumentou ao longo dos últimos anos em decorrência do aumento da obesidade infantil.
Quadro clínico: As características clínicas são semelhantes às dos adultos, acometendo normalmente adolescentes com sobrepeso/obesidade, com sinais de resistência insulínica, como acantose nigricans, e com história familiar para DM ou doença cardiovascular.
- O quadro clínico inicial é variável, podendo o paciente ser assintomático (mais comum) ou ter sintomas mais evidentes, decorrentes da hiperglicemia:
- Poliúria, polidipsia, noctúria (semelhante à DM1);
- Perda de peso recente (menos que em pacientes com DM1);
- Corrimento vaginal/vulvovaginite por Candida em meninas e tínea cruris em meninos;
- Cetoacidose diabética (CAD) pode ocorrer em 5-12% como apresentação inicial da DM2, porém a maioria dos pacientes que apresentam CAD pela primeira vez tem DM1;
- Estado hiperglicêmico hiperosmolar (HHS) raramente ocorre, sendo descrito em adolescentes afro-americanos com DM2 recém-diagnosticada.
Há sobreposição clínica entre DM2 e DM1, e, no momento inicial da apresentação clínica, pode ser difícil distinguir entre os dois. Entretanto, essa distinção é importante, pois o manejo é diferente. Por isso é importante realizar uma boa história clínica, procurando os fatores associados ao DM2, por exemplo, idade de início mais tardio (normalmente após os 10 anos de idade), sinais de resistência à insulina, dislipidemia, história familiar, assim como a realização de testes laboratoriais que auxiliam no diagnóstico do tipo de DM.
- Fatores de risco:
- Obesidade;
- História familiar positiva;
- Grupos étnicos específicos (nativos americanos, negros, hispânicos, asiáticos ou habitantes de ilhas do Pacífico);
- Sexo feminino;
- Puberdade;
- Exposição no pré-natal à desnutrição materna ou diabetes gestacional;
- Baixo peso ao nascimento ou pequeno para idade gestacional;
- Filho de mãe diabética;
- Síndrome dos ovários policísticos.
Exame Físico
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